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Abate de Jumentos no nordeste brasileiro

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(@vinicius-eduardo-silva-perin)
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Grupo 9: Vinicius Eduardo Silva Perin, Luana Isabela Ferreira Barboza, Giulia Haibara de Natal, Giulia de Castro Bellinati, Fernanda Alves de Oliveira.

 

Grupo 10: Geovanna Alexia dos Santos, Marianna Borges Varela, Monique Silva Belko, Laisa Hanna Pinto Barbosa, Camila Junqueira Colas, Jessica Oliveira Fraga.

Resumos das notícias

A espécie Equus asinus, conhecida como jumento brasileiro, apresentou uma drástica redução na sua população, a qual pode chegar à extinção até 2030, como é evidenciado pelas notícias: “Extinção dos Jumentos no Brasil: entenda impactos econômicos do comércio predatório” e “Jumento Brasiliero pode entrar em extinção até 2030 com abate para exportação para China, alerta pesquisador” advindas dos portais online da CNN e G1, respectivamente. O declínio alarmante dos jumentos, apresentou em pouco mais de 20 anos sua população reduzida de 1,3 milhões para 78 mil, sendo que a principal causa seria o abate predatório e extrativista em larga escala de jumentos em vulnerabilidade para exportação de suas peles para China, em que é retirado o colágeno para fabricação de um suplemento alimentar milenar da medicina tradicional chinesa, conhecido como eijao, o qual mesmo não apresentando sua eficácia comprovada cientificamente, é usado para tratar desde anemia até impotência sexual. Sem criação controlada nem reposição dos animais, a exploração é considerada insustentável e marcada por maus-tratos. Pesquisadores alertam para o risco de perda de um símbolo cultural do Nordeste e defendem a proibição do abate e o incentivo a projetos de conservação.

A redução populacional dos Equus asinus no Brasil deixa a mostra uma questão muito mais complexa no Brasil envolvendo aspectos econômicos, culturais, ambientais e éticos. Gerando debates sobre a sua exportação e uso dos seus derivados e os limites sobre a exploração animal e a conservação de uma espécie que está historicamente associada à cultura nordestina. 

 

Pontos que ferem o BEA

 

O abate de jumentos no Brasil envolve uma série de problemas de bem-estar animal e de ameaças à conservação da espécie. Segundo dados da FAO, IBGE, AGROSTAT e da Frente Nacional de Defesa dos Jumentos, houve uma redução de 94% da população de jumentos no país entre 1964 e 2025, com uma queda de 1,37 milhão para 78 mil indivíduos, o que aponta para um risco de extinção em até 2030. Essa redução também é percebida globalmente, como no Egito e outros países africanos. 

 

A cadeia de exploração é extrativista e insustentável, que avança em ritmo superior à capacidade reprodutiva da espécie. Essa situação está voltada principalmente para o comércio externo, com a exportação da pele de jumentos à China para a produção de colágeno, que é utilizado para a fabricação de um elixir conhecido como ejiao, um composto tradicional da medicina chinesa sem eficácia comprovada. Segundo a Organização The Donkey Sanctuary, esse mercado movimenta cerca de 5,9 milhões de jumentos abatidos por ano no mundo. Ademais, os lucros da comercialização ficam majoritariamente concentrados em empresas estrangeiras, sem retorno significativo para as comunidades nordestinas.

 

No Brasil, apenas 3 frigoríficos possuem inspeção federal (selo SIF) para o abate de jumentos, todos localizados na Bahia. No entanto, mesmo nessas unidades há graves lacunas de fiscalização e denúncias de irregularidades, há aplicações de métodos de insensibilização cruéis, como marretadas, violando diretamente os princípios das cinco liberdades do bem-estar animal. A falta de um manejo reprodutivo adequado compactua para a diminuição da população de jumentos, pois possuem gestação de 11 a 12 meses e atingem a idade para abate aos 3 anos, ou seja, a taxa de exploração é mais rápida do que essa população consegue se reproduzir. Ademais, estudos da Revista Animals identificaram 104 animais abandonados e destinados ao abate com sinais graves de desnutrição e inflamação sistêmica, o que reforça a falta de atenção ao bem-estar animal e a segurança alimentar dos consumidores. Além disso, casos de abandono em massa já foram registrados, como o de 2019 em Canudos na Bahia, quando 800 jumentos foram deixados à própria sorte após suspensão do abate, muitos portando mormo, anemia infecciosa equina, herpesvírus e babesiose equina, evidenciando a ausência de controle sanitário. De acordo com o jurista Yuri Lima, o transporte também se dá de forma inadequada, onde os animais são capturados sem critério, comprados de pequenos tutores ou furtados, e transportados por longas distâncias sem água ou cuidados veterinários. Há ainda denúncias de trabalho infantil e trabalho análogo à escravidão envolvido na cadeia de abate, além de notificações de casos de mormo em humanos, configurando risco à saúde pública.

 

Vale ressaltar que esses animais representam um patrimônio cultural para o Nordeste, onde desempenham papéis como animais de trabalho (transporte de pessoas, carregamento de água e atividades de agricultura familiar). Muitas das comunidades rurais dessa região têm seus animais roubados, gerando grande impacto socioeconômico, pois são privados de sua fonte de trabalho e subsistência. Assim, a comercialização internacional não apenas viola o bem-estar dos animais, mas também desestrutura o modo de vida de populações vulneráveis, sem trazer benefícios econômicos locais, uma vez que os lucros são concentrados na indústria estrangeira. 

 

Assim sendo, os jumentos necessitam de medidas urgentes de proteção. Apesar de já existirem biotecnologias para a produção de colágeno alternativo, ainda não estão disponíveis de forma acessível. Nesse contexto, a implementação de políticas públicas é fundamental para mudar esse cenário. Não se trata apenas de proibir o abate, mas de estabelecer uma política nacional de proteção, manejo e reinserção dos jumentos em atividades sustentáveis. Isso envolve a reinserção desses animais na agricultura familiar e pastoreio, regulamentação do transporte e guarda responsável, fiscalização contínua dos frigoríficos e criação de programas de manejo reprodutivo que garantam a recuperação populacional da espécie. Além disso, é necessária uma articulação entre órgãos federais, estaduais e municipais para combater o abandono, coibir o furto de animais e assegurar condições dignas a esses asininos, como a criação de santuários, aproveitamento sustentável do leite e até mesmo atividades envolvendo jumentoterapia, permitindo não só preservar a espécie e respeitar o bem-estar animal, como também fortalecer economias locais e proteger um patrimônio cultural brasileiro.

Pontos a favor do BEA

O abate de jumentos no Brasil merece atenção cuidadosa por reunir aspectos econômicos, sociais, sanitários e de bem-estar animal sob uma lógica predominantemente extrativista. Em regiões do Nordeste, onde o uso do jumento para trabalho agrícola foi amplamente substituído pela mecanização e por motos, muitos desses animais acabaram abandonados em fazendas, rodovias ou zonas rurais com baixo suporte de manejo. Essa realidade abre espaço para que surja um mercado, no caso impulsionado por demanda internacional, de aquisição desses animais por frigoríficos que os destinam ao abate, muitas vezes visando a pele e o colágeno usado em produtos como o Ejiao, voltado à medicina tradicional chinesa. Essa conjunção de excesso de animais sem função local + demanda externa + brechas regulatórias é a base da atividade que hoje enfrenta forte crítica.

Do ponto de vista do bem-estar animal, há uma dualidade: por um lado, a existência de frigoríficos com selo de inspeção federal em alguns estados dá a impressão de que há alguma formalização da cadeia; por outro lado, relatos consistentes indicam que muitos jumentos chegam aos abatedouros em condições de desnutrição, com transporte precário, sem ambiente adequado de espera, avaliação veterinária ou manejo respeitoso. Ainda mais grave: a atividade não está inserida em um sistema que repõe ou maneje reprodutivamente a espécie,  ou seja, o abate ocorre sem programa de criação voltado à manutenção do rebanho de jumentos. Isso coloca em xeque a própria sustentabilidade da prática e, consequentemente, a plena observância dos princípios de bem-estar, que incluem não somente o abate digno, mas também a garantia de ciclo populacional saudável.

A situação se agrava porque os números sugerem um declínio dramático: o rebanho brasileiro caiu cerca de 94 % nas últimas três décadas. De aproximadamente 1,37 milhão de jumentos em 1999 para cerca de 78 mil em 2025. Nesse ritmo, pesquisadores alertam que a espécie pode estar à beira da extinção no Brasil. Esse quadro evidencia que, mesmo com melhor fiscalização dos abatedouros, o principal problema permanece: a ausência de políticas públicas de manejo reprodutivo, a lógica extrativista de “abater porque o animal está sem função” e a falta de reestruturação da cadeia para uso sustentável da espécie.

Assim, embora o grupo que defende observar os “pontos positivos” reconheça que gerar alguma renda em comunidades vulneráveis ou destinar animais abandonados possa ser uma justificativa emergencial, é preciso deixar claro que esse “lado positivo” só se sustenta se vier acompanhado de reformas estruturais. Entre as brechas que precisam ser resolvidas por meio de políticas públicas estão: a vulnerabilidade social de famílias que vendem jumentos muitas vezes por necessidade de sobrevivência; o risco sanitário associado ao abandono de animais, à falta de abrigo, alimentação adequada, controle de doenças e transporte digno; a confluência de interesses políticos locais que, ao verem na eliminação de animais “sem função” uma solução simples, podem negligenciar o bem-estar e a preservação; e, finalmente, a aliança entre Brasil e China no sentido de que a demanda externa pela pele e colágeno de jumento opera sem que haja internamente uma regulação robusta que equilibre o benefício econômico com a conservação da espécie e o tratamento ético dos animais.

Em resumo, o abate de jumentos no Nordeste para a cadeia internacional de colágeno promove geração de valor para alguns atores. Mas ao mesmo tempo reafirma que essa prática, tal como está hoje, contém falhas profundas no quesito bem-estar animal e sustentabilidade populacional. A verdadeira questão para políticas públicas e para o debate é: como tornar essa atividade compatível com o bem-estar animal, com a conservação da espécie e com justiça social nas comunidades envolvidas. Sem isso, o abate continuará sendo meramente extrativo, e o jumento poderá se tornar ausência em vez de recurso.

Conclusão

O abate de jumentos no Brasil configura uma atividade extrativista insustentável que coloca em xeque a conservação da espécie e os princípios básicos do Bem-Estar Animal (BEA). A lógica de exploração, impulsionada pela demanda internacional por pele para a produção de ejiao, superou drasticamente a capacidade reprodutiva dos asininos, resultando em uma queda populacional de 94% e um risco iminente de extinção no país. As falhas da cadeia são profundas e abrangentes: desde a captura e o transporte cruel, a chegada de animais desnutridos e doentes aos abatedouros, a ausência de controle sanitário (com riscos, inclusive, à saúde pública, como casos de mormo em humanos), até o uso de métodos de insensibilização ilegais, violando frontalmente as Cincos Liberdades do BEA.

Apesar da possível geração de renda emergencial para comunidades vulneráveis e da formalização parcial em poucos frigoríficos, essa atividade não pode ser mantida sem uma reestruturação ética e sustentável. A ausência de políticas públicas de manejo reprodutivo e a natureza extrativa da prática condenam a espécie à extinção e perpetuam o sofrimento animal.

Portanto, a solução para o dilema do jumento brasileiro não se resume à proibição, mas exige uma intervenção estatal urgente e articulada. É imprescindível implementar uma Política Nacional de Proteção e Manejo que priorize a recuperação populacional por meio de programas reprodutivos, a regulamentação rigorosa do transporte e do abate humanitário, e a reinserção sustentável do jumento na agricultura familiar e em atividades socioculturais (como a jumentoterapia). Somente essa abordagem integrada — que alinha conservação, bem-estar animal e justiça social — poderá preservar esse patrimônio cultural do Nordeste e garantir um tratamento digno aos asininos.

Referências

 

GOYZUETA, Veronica. Abate de jumento para produção de ejiao cresce no Brasil e levanta risco de extinção da espécie. BBC News Brasil, 17 out. 2025. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/articles/c5yj905ep4yo . Acesso em: 11 nov. 2025.

Jumento brasileiro pode entrar em extinção até 2030 com abate para exportação para China, alerta pesquisador. G1 – Meio Ambiente, 26 jun. 2025. Disponível em: https://g1.globo.com/meio-ambiente/noticia/2025/06/26/jumento-brasileiro-pode-entrar-em-extincao-ate-2030-com-abate-para-exportacao-para-china-alerta-pesquisador.ghtml . Acesso em: 11 nov. 2025.

MARIN, Jorge. Extinção dos jumentos no Brasil: entenda impactos de comércio predatório. CNN Brasil, 01 jul. 2025. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/tecnologia/extincao-dos-jumentos-no-brasil-entenda-impactos-de-comercio-predatorio/ . Acesso em: 11 nov. 2025.


   
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